Me leva que eu vou

Sabe aquele quase vilão que está no filme só para que no momento certo se redima e ajude o mocinho? Aquele sábio mentor que morre no momento em que o herói precisará andar com as próprias pernas. Aquele momento em que a trilha sonora sobe e a plateia cai em lágrimas assim que o casal se reencontra aos beijos. Pois é desse tipo de manipulação de sentimentos em prol da diversão, tão recorrente no cinema, que o show e a música do The Killers é feita.
A diferença crucial é que esse tipo de joguinho costuma não funcionar se você percebe que está sendo manipulado. Não é o caso. Ainda que dê para perceber que cada gesto de Brandon Flowers é milimetricamente sincronizado com a pirotecnia do palco, que cada refrão da banda vem depois de um pequeno silêncio para torná-lo galopante e a música mais épica, ainda assim o efeito sobre a plateia é avassalador (observa no vídeo lá embaixo, em um dos pontos altos do show). Na pior das hipóteses, um show do The Killers é uma experiência divertidíssima recheada de hits incontestáveis. Em contrapartida, a melhor das hipóteses também não é muito melhor que isso.
Em um texto da Rolling Stone sobre a banda já citado aqui n’O Coala, o autor narra uma cena repetida em meio à lama de São Paulo, no sábado, que sintetiza a banda com perfeição: “Flowers ergue o pedestal do microfone com a mão direita e acompanha as batidas de Vannucci com movimentos no ar. Ele repete a frase vez por outra, com toda a paixão que tem: ‘I’ve got a soul, but I’m not a soldier’. É uma coisa maravilhosa de se ver. E, por um instante, a gente quase acredita que a frase possui algum significado”.
Pois o fato de The Killers ser (com mérito) uma das grandes bandas da década mesmo sem que a sua música… como direi… fale com o teu coração da forma como os monstros do rock sempre falaram com os seus fãs talvez seja um reflexo de uma geração meio desencantada e desencanada, sem a necessidade de reconhecer um messias no palco. Embora isso possa parecer meio triste para os que já se relacionaram de forma tão mais visceral com seus ídolos ao microfone, não parece ser ruim nem menos autêntica essa música que nada mais é do que entretenimento.














