Sopão grátis

O print screen acima, senhores, é do meu desktop. Temos ali alguns filmes. Não muitos, porque ainda aprecio o ritual de sair de casa para assistir a um lançamento em uma tela maior do que o meu apartamento. E também porque ainda me irrito baixando legendas e com a impossibilidade de fazer o som do meu computador sair pela TV.

Em outra pastinha, temos músicas, todas baixadas. Nenhum centavo gasto. E percebam que há outra pasta chamada Capinhas. Porque a cada novo álbum baixado, eu vou até o site da Amazon e copio a capa dele para depois vincular às músicas e aparecer na tela do Iphone. Ou seja, eu sou pirateiro, mas sou organizado e limpinho.

Nas demais pastas, minha diversão preferida dos últimos anos: seriados americanos disponíveis em sites especializados quase imediatamente após a transmissão de TV nos EUA, já legendadíssimos. Com uma internet de 10MB e um pacote de bolachas, eu dispenso a HBO do meu pacote da NET e assisto aos seriados dela quando tiver tempo.

Três parágrafos só para deixar claro que não há virgem neste bordel dos projetos de lei Sopa e Pipa, recém derrubados, que pretendiam ampliar mecanismos de punição para pirataria e violação de direitos autorais pela internet nos EUA. A gente grita que isso restringiria a liberdade na internet, o direito a compartilhar informação (e restringiria mesmo), mas na verdade o que nós queremos é assistir um seriadinho e não pagar nada.

Então, entendo um pouco a fúria das gravadoras, produtoras e afins. Elas têm o direito de criar mecanismos mais eficientes para me cobrar se eu consumo os seus conteúdos. Mas há dois bons motivos para ser desfavorável à lei (fora o de que um coala poderia ser enjaulado):

1. Enxugamento de gelo

Toda luta contra uma nova tecnologia é uma luta perdida, a única diferença é o tempo gasto esperneando. Quando foi possível gravar o rádio na fita cassete, já era. Não adiantou proibir a gravação. O que aconteceu foi que a indústria teve de ser adaptar. Tivessem aprovado as leis, a diferença seria que a Big Media ganharia uma pistola randômica para espernear, chumbando imediatamente quem fosse flagrado pirateando na internet com penas de até cinco anos. Mas sério que vocês vão ficar aí atirando nesse mar de gente?

O tempo desperdiçado mirando a pistola ao léu deveria estar sendo gasto na busca de alternativas para entender esse mundo em que o lance precisa ser muito bom e muito prático para valer a pena ser pago. Foi assim que nasceu o iTunes, por exemplo. Agora, o que a indústria vai ter de entender é que isso é muito MAIS desafiador e que vai resultar em MENOS dinheiro do que a fórmula anterior de consumir cultura. Mas a forma anterior é moribunda, não há lei que fará ela ressuscitar.

2. Argumento calhorda

Se tem uma coisa que me dá nos nervos é a indústria dizer que, com menos dinheiro, se torna menos criativa. Menos artistas surgirão se você comprar discos piratas. Balela. Pegue a época de ouro do CD, por exemplo, na segunda metade da década de 90. Com as gravadoras cheias de dinheiro, você entrava na loja e via uma prateleira forrada de novos artistas? Coisa nenhuma, você via uma prateleira gigantesca da coleção Perfil, que não pagava um centavo pra artista nenhum, pois a gravadora já tinha os direitos autorais, e o que vendesse era lucro.

Dinheiro não traz criatividade, pelo contrário, traz preguiça. Acho esse rapaz careca que fala no TED sobre as leis um pouco romântico de conveniência, mas ele tem um argumento definitivo: o que a indústria quer é nos colocar passivamente de volta ao sofá, em frente à TV. Não estamos certos de piratear, mas para arrancar o nosso dinheiro, os executivos terão de inventar uma forma de fazer isso valer a pena.

Murros e dilemas do autojornalismo

Ontem, por volta do meio-dia, eu tomei dois socos na cara. Aconteceu nos terminais bancários do Zaffari da Lima e Silva, quando repreendi um sujeito que havia furado a fila para efetuar um saque. Mais do que os murros – de surpresa, fruto da covardia e da loucura de um imbecil qualquer –, me doeu como cidadão a (não) reação dos funcionários do supermercado. Só que eu não sou apenas um cidadão, eu sou um jornalista. E, pasme, isso não é bom.

Antes de mais nada, o que me indignou no episódio:

1. Nenhum dos funcionários ligou para a polícia, apesar dos meus insistentes apelos tão logo fui agredido. Um deles disse que esse não era o trabalho dele, que o trabalho dele era “apenas apaziguar”. Eu mesmo tive de ligar, do meu celular, para o 190.

2. Mesmo sangrando com esse corte aí da foto, não me foi oferecido nenhum socorro. Novamente, eu mesmo tive de comprar bandagem na farmácia e fazer um curativo no banheiro do local.

3. A melhor parte: o sujeito fez o saque e seguiu suas compras. Passou cerca de 15 minutos circulando e comprando sem nenhuma ação dos funcionários. Uns sete caras atônitos. Tivessem impedido ele de pagar ou apenas fechado a porta por dois minutos, a polícia (que chegou rápido, de moto e cheia de boa vontade) teria chegado a tempo de prendê-lo em flagrante. Mas nada disso foi feito e o sujeito conseguiu ir embora a passos lentos sem ser identificado.

Tivesse acontecido com um terceiro, eu teria começado imediatamente a fazer uma matéria mesmo que depois fosse avaliado pelo veículo em que eu trabalho que ela não fosse relevante suficiente para ser publicada. Mas como eu sou uma vítima/repórter, uma reportagem provavelmente seria vista como jornalismo provalecido e em causa própria. E não simplesmente sobre um homem vítima de um crime e um cliente vítima de descaso. Não deve ser esse (e, neste caso, não foi) o critério para a publicação ou não de uma história, mas a presença de um jornalista do próprio veículo na matéria adquire um peso pós publicação. Não me parece ser culpa de ninguém. É simplesmente do jogo.

Fora da grande mídia, restam as redes sociais. Aí temos um novo pepino.

Ainda vai longe a discussão sobre como profissionais de imprensa devem se comportar em redes sociais. Um repórter de Polícia pode tuitar um palavrão contra o técnico do seu time? Um repórter de Esporte pode colocar uma foto de abuso policial no Facebook? O quanto eles representam a si mesmos como cidadãos com direito a opinião e o quanto eles representam os locais em que trabalham?

Se esse capítulo do código de ética jornalístico ainda está sendo escrito na base do erro-e-acerto e do bom senso, e se o meu rabo de repórter segue relativamente preso, fico feliz por quem está livre dessa. Por quem é dentista, é engenheiro, e não tem autocensura para denunciar um produto vencido na prateleira, um sorvete com cacos de vidro, uma operadora cuja promoção é uma fraude…

E aí chegamos a contradição das contradições: essas microcoberturas na internet das indignações do cidadão comum, que podem ser feitas por qualquer um com acesso a uma rede social, parece cada vez mais ser o futuro do jornalismo. Um jornalismo em que a importância é medida diretamente pelo tamanho da repercussão e da reprodução entre os próprios leitores, e que os jornalistas profissionais são, ironicamente, os que menos podem participar.

PS: antes que me perguntem nas caixas de comentários: todas as providências em relação a ocorrência, laudos e etc já foram tomados e está tudo bem comigo salvo um band-aid na bochecha.

A dura reality


A tosquice é dele, mas a culpa é sua

Imagine você, diretor do Big Brother, sendo acordado de madrugada. Do outro lado da linha, o estagiário que faz a clipagem do programa nas redes sociais alerta que o pessoal assistindo ao pay-per-view, diferentemente do usual, não está gostando nada de ver a movimentação dos edredons. Um dos participantes está, no mínimo, se aproveitando do outro. Pergunto: quando chega nesse ponto, há uma decisão que equilbre o justo, o juridicamente correto, o esperado pelo público e o bom para a emissora?

É fácil chinelear a Rede Globo pelas atitudes que tomou, e estou longe de concordar com algumas delas, como o inacreditável tuíte de Boninho atribuindo a manifestação do público ao racismo (ah, vá). Ainda assim, impressiona a fúria que tomou conta da família brasileira e tuiteira contra a emissora, obrigada a escolher o mais correto sendo que qualquer reação possível seria péssima.

Não estou defendendo o cara. Chame ele do que quiser, há poucas coisas mais repulsivas do que um homem com esse perfil, o do “tirador de casquinha”. O cara que se aproxima nas festas de quem está fragilizada, de quem está fácil, e não de quem ele curte ou de quem curte ele. Só que expulsar sumariamente o sujeito seria, indiretamente, responsabilizar-se por carimbar uma pessoa como estuprador pro resto da vida.

E isso é muito, muito grave. Tão grave, que para ser processado por isso no Brasil exige-se uma porção de laudos, de testemunhos, cuja ausência pode se voltar contra a Globo ali na frente. Expulso e bem assessorado juridicamente, podem crer que esse Daniel é o BBB mais próximo de se tornar um milionário às custas da família Marinho. A expulsão por “comportamento inadequado” resguarda um pouco a imagem da emissora, mas o arranhão foi fundo.

O episódio, na verdade, é consequência de um pecado anterior. O problema é que, especialmente no início, o Big Brother é um programa de pessoas lamentáveis fazendo coisas lamentáveis. Será que precisa ser assim? Será que selecionar gente um pouquinho (inho mesmo) mais qualificada não faria bem ao programa? O legado mais importante dessa história é que talvez uma parcela do público pense se ainda tem estômago para ver esse tipo de “realidade” na TV e em qual é a sua parcela de culpa por esse espetáculo de marombagem na balada ser repetido à exaustão. Pode xingar a Globo, mas xingue também a si mesmo por assistir e gostar.

Há uma dinâmica humana muito interessante e, de tempo em tempo, muito bem explorada pela edição do reality show. É esse aspecto que faz d’O Coala fã não deste Big Brother, mas de Big Brother em geral. Mas na falta de participantes mais interessantes Bial chamar de heróis, vale lembrar que o controle remoto está aí. Aliás, sempre esteve.

Elegância na jaula


UFC na Globo: chuta que é tetra!

Tudo e mais um pouco foi falado sobre os porquês do crescimento do MMA no Brasil no mundo. Não acredito muito na tese da mera espetacularização da violência, até porque quanto menos violento se tornou nos últimos anos, mais popular ele ficou. O fator mais relevante parece ser o surgimento de um esporte em que as particularidades de um atleta realmente importam e, assim, abre-se campo para o fator surpresa.

Em uma realidade em que sabe-se qual será o piloto vencedor da fórmula-1 na segunda corrida, em que um ou dois tenistas dominam o circuito alternando grand slams, em que nadadores e corredores lutam apenas contra os próprios tempos, vale ouro um esporte em que vale torcer para mais do que um atleta, para um personagem.

Nesse sentido, embora soe babaca na boca dele, Galvão Bueno acerta ao cunhar o termo “gladiadores do terceiro milênio”. Mas não deixa de ser irônico que o terceiro milênio, o das performances esportivas milimetricamente aprimoradas, tenha se voltado para um esporte mais tosco e imprevisível.

Até aqui, tudo joia. Mas o que não precisava vir na carona da TV aberta é o ufanismo bobalhão e, neste caso em particular, desrespeitoso, que a Globo insiste em carimbar quando um brasileiro se destaca em qualquer coisa. Tudo bem fazer isso com um drible, com uma ultrapassagem, mas poxa, tem uma pessoa, não importa de que nacionalidade, sendo esmurrada no chão. Não é surreal que um narrador fique aos berros de “Brasil, Brasil!!!”? Imagine, por exemplo, o inverso do vídeo abaixo: Júnior Cigano quase inconsciente tomando marretadas na cabeça e os narradores da Fox gritando “USA! USA!” para Cain Velasquez, em meio a vinhetinhas. Não seria o cúmulo?

Justiça seja feita, Galvão esteve mais contido ontem na sua segunda narração, a do UFC Rio 2. Mas ainda tem muito a aprender com a elegância dos narradores americanos e até do Sportv, pois quanto mais brutal, mais respeito o esporte exige aos seus participantes. E isso nada tem a ver com empolgação, sempre bem-vinda. Quando narraram em novembro a épica luta de Dan Henderson contra o brasileiro Maurício Shogun, por exemplo, todos foram ao microfone dizer que não importava o resultado (perdeu o brasileiro), que era um combate histórico entre dois vencedores.

Na mesma posição, tenho certeza de que Galvão puxaria um mimimi contra a arbitragem com seu companheiro de bancada em favor do brasileiro. A diferença é que o “Arnaldo” poderia (e deveria) dar-lhe umas bifas.

Crédito da foto: Marcelo de Jesus, UOL

O filho eterno


Eva e o pequeno Kevin Khatchadourian:
um novo significado à expressão “monstrinho”

Masoquismo é o que leva uns oito cidadãos à sessão de pré-estreia de Precisamos Falar Sobre o Kevin em uma sexta-feira à noite em Florianópolis. Eu, além de já ter relaxado em relação a sofrimento nestes últimos dias (nem perguntem), tinha como desculpa ser fã do livro de Lionel Shiver e a curiosidade de ver como uma história tão horripilante, tão fácil de desviar os olhos, seria adaptada para o cinema. A resenha literária em ZH (que eu mesmo escrevi), está reproduzida aqui, no blog Mundo Livro.

Kevin é narrado sob a perspectiva de Eva Khatchadourian desde o parto até o momento em que o filho comete um massacre em sua escola, bem como a vida de ambos após o crime, já que o adolescente, diferentemente do usual, não se suicida. É preso em um reformatório.

Será preciso a análise de alguém que tenha assistido somente ao filme para saber se ele é tão competente quanto a obra original, mas os dois optam por formas opostas de causar impacto. Desde a primeira cena percebe-se que a aposta da película é estética. Muito antes do massacre, o vermelho explode em cenas curtas e desconexas nos molhos de tomate, nos recheios dos sanduíches, nas paredes… uma forma inusitada de exacerbar o banho de sangue sem de fato mostrá-lo.

Curiosamente, a beleza do filme vitima um dos aspectos mais contundentes do livro: a honestidade e crueza em detalhes, que terminam costurando um retrato assustador não só do crime, mas da maternidade em si. Embora a competência técnica da diretora (Lynne Ramsay) seja evidente, talvez o que Kevin precisasse era de um bom e velho tripé apontado para o olhar de Eva, por mais desconfortável que isso fosse.

De irreparável, são todos os intérpretes de Kevin (em especial o adolescente Ezra Miller, que consegue transmitir medo, repulsa e, ainda assim, algum charme ao assassino) e de Eva, que não poderia ter sido vivida por outra atriz senão Tilda Swinton. Se o roteiro não enfatiza tanto isso nos diálogos entre mãe e filho na cadeia (tão ricos no livro), está no olhar de Tilda, completamente entregue ao personagem, a sua danação: ao mesmo tempo em que é seu fardo eterno, o filho é o único motivo para Eva continuar viva.

Questão de honra

O Coala tem poucas tradições. Talvez a única seja comentar a lista das 100 mulheres mais sexy da revista VIP anualmente (aqui, os pareceres de 2008 e 2009). A análise de 2010 vem uns dias atrasada não por má vontade, mas porque o coalinha aqui só ficou sabendo que saiu o resultado ao passar na banca faz pouco. Talvez tenha dado pouca repercussão, talvez eu tenha estado muito atucanado. Provavelmente as duas coisas.

A lista tem todos aqueles problemas já citados em anos anteriores – misturar Ivete Sangalo com Megan Fox, estar forrada de ex-BBBs, etc, etc – mas o agravante desta vez foi a revista, diferentemente dos anos anteriores, não ter publicado em seu site o slide show das 100 queridas e seus infames textinhos sobre cada uma. É a guerra declarada entre impresso e online. Quer ver? Vai comprar…

O jeito foi conseguir a lista na internet, mas como não conheço todas as gostosas pelo nome, pode que alguma mocinha interessante passe batido. Enfim, seguem alguns nomes e colocações dignas de nota:

A vencedora: Juju Salimeni

A mina, em si, não é nada de especial. Juju, do Pânico, é a gostosa standard: lôra de chapinha, silicone, bunda redonda e arrebitada, coxa de lateral-esquerdo… Mas o que ela representa é significativo: a pedreiragem retorna à liderança da lista. Que Gisele Bündchen, que Grazi Massafera o quê. O que o brasileiro acha realmente sexy não é o exótico, não é o belo, não é o charme… é a colega da firma. A gostosa que mata o sujeito no dia que vem com a roupa mais curta, e a que passa a mensagem de que um dia, quem sabe, vai saber, pode vir a dar para o cara. É esse tipo de mulher que Juju Salimeni representa e que definitivamente não faz o meu tipo. Para a civilização em geral, uma derrota. Para os homens em geral, nada mais que verdade.

18ª Francine Piaia

– Sabe quem eu acho a mulher mais sexy do mundo? A Francine, do Big Brother 9.
– Tesão, né? Mas eu prefiro a Milena, a amiga da Priscila.
¬¬

Mais uma vez, fãs-clubes arruinaram a lista da VIP. Tudo bem que as últimas BBBs sempre figuram na lista. Lá está, na honrosa terceira colocação, a masterbunda Cacau. Lá pelas tantas, aparecem Lia (14ª), Maroca (36ª), Morango (38ª)… Todas prontinhas para serem sublimadas no ano que vem, quando o amor de pica masculino renova suas BBBs favoritas. Pois o mais triste de ver Francine, Irislene (13ª) e Milena (77ª) na lista é pensar que seus fãs-clubes são compostos exclusivamente por MU-LHE-RES (e aparentemente todas gordas, o que não deve ter um boa explicação, mas não deixa de ser intrigante). E mal posso imaginar a pobreza de espírito de quem se torna fã de uma ex-participante de reality show, ainda mais por mais de um ano. Justiça seja feita, não foram apenas as fãs de BBB, pessoal do RBD e do Crepúsculo também elegeu candidatas.


É nóis na VIP

23ª Larissa Riquelme

Deixa que digam, que pensem, que falem… Eis a mulher mais sexy do mundo de 2010. Que atire o primeiro Motorola quem não sentiu o sangue migrar quando deparou pela primeira vez com a foto da paraguaia com o celular ali, na torcida por Lucas Barrios e companhia. Problema aqui foi superexposição. Duas semanas depois de chacoalhar pela primeira vez as mentes masculinas do planeta, ninguém mais aguentava ver Larissa Riquelme pela frente. Ficou tanto tempo no Brasil que até milho para as pombas do Parcão (e indiretamente, para as tartarugas) a criatura deu. Sua Playboy, então, chegou às bancas com séculos de atraso. Mas nada isso apaga o efeito causado pela paraguaia nesse ano. E, detalhe, ela é realmente gostosa pra caramba. Chinelona? Muito, mas faz parte do pacote.

59ª Lady Gaga

“Aham, Cláudia, senta lá”.

63ª Mariana Ximenes

Em pleno papel de bisca da novela das oito, é surpreendentemente baixa a colocação de Mariana Ximenes na lista. Difícil entender o porquê de Mariana não decolar (não é de hoje, foi 74ª no ano passado). A explicação mais plausível é que ela chega a ser bonita demais para ser considerada gostosa. Vai sempre passar algo mais angelical do que safado, por mais que se esforce em desconstruir essa imagem. E no que se esforça, acaba deixando de agradar também os que curtem as santinhas, os que colocam Sandy sempre nas cabeças (esse ano, é a 16ª). Mas a minha explicação preferida é que é tudo culpa do Sílvio de Abreu. Cada vez que ele põe ela a se esfregar com o Reynaldo Gianecchini ou com o Tony Ramos em uma cena, a pobrezinha perde CREDIBILIDADE ENQUANTO FÊMEA.

85ª Fernanda Souza

É uma estreia discreta, uma colocação modesta, mas é como o camarada Armstrong disse: “um pequeno passo para o homem (e especialmente para a mulher, no caso), mas um grande passo para a humanidade”. Fernanda Souza é a ilustre representante das semigordinhas na lista. Aquelas que um mês de academia faz toda a diferença para ser escalada ou não no time das gostosas. Para as mulheres, é bom ver que esse biótipo é pra lá de aceito e admirado. E nesse caso, é melhor sobrar (um pouco, olhe lá) do que faltar. Sempre há um maldito personal trainer disposto a secar esse tipo de mulher. E enquanto elas sorriem de fome na capa da Boa Forma, nós homens nos jogamos de um precipício.

Paul in Poa: possíveis manchetes

Antes mesmo de ser confirmada a vinda de Paul McCartney a Porto Alegre, jornalistinhas gaúchos já quebravam a cabeça pensando nas possíveis manchetes sobre o tema. Confira aqui nossas apostas (com a colaboração de amigos não-coalas).

“420 gaúchos morreram após o show de Paul McCartney” ou “Paul McCartney: chimarrão is good”…

“Paul McCartney quebra o vegetarianismo por costela gorda”

Foto de capa: Paul tomando chimarrão com o pôr do sol do Guaíba ao fundo e uma frase dele: “Nem da Eye of London é possível contemplar um pôr do sol tão bonito assim. É seguramente o mais bonito do mundo”

“Paul McCartney faz cover de ‘Amigo Punk’ com participação de Frank Jorge durante show na Capital”

“Paul reverencia o Rio Grande tocando ‘Querência Amada’ e diz que ’sempre foi gaúcho’”

“Paul veste bombacha e toca a versão dos The Guritels de Help”

“Paul cai com limosine no Dilúvio e declara: chega de carro sem airbag”

“Paul se emociona ao cantar o Hino Riograndense”

“Paul diz que sua avó é de Bagé”

“Paul: estou me mudando para o Alegrete”

“Paul diz que seu analista é de Bagé” (bah, PIOR piada)

“Show de Paul em Porto Alegre foi o melhor da bacia do Prata, diz o cantor”

E A MELHOR: “PAULrto Alegre”

Legado

Procurando um livro do Mario Quintana na bagunça eterna que é o meu quarto, achei o livro-homenagem do Gabriel Pillar. Reli alguns textos e li pela primeira vez outros. Lembro que, logo depois da homenagem que marcou um ano da sua morte e quando foram entregues os livros aos amigos do Gabriel, ficou difícil ler tudo aquilo que fazia lembrar do guri de sorriso largo que já não mais andava pelas ruas de Porto Alegre, sempre disposto a me receber com um abraço apertado.

No livro, está a entrevista que Gabriel concedeu ao @tdoria em 2006. Resgatei duas partes que fazem muito sentido hoje, 2010 (grifos meus).

Você acredita que uma rede de blogs seja o melhor modelo para os blogs? É a melhor forma de organizar o conteúdo e buscar anunciantes? Vários blogs reunidos sobre diversos assuntos?
Gabriel - Como assim, alguém realmente ganha dinheiro com blogs? Enfim, uma comunidade com certeza traz bastante visibilidade, o que para alguns pode ser interessante. No fim vai depender do uso que queres para o blog.
Algumas pessoas não querem ser ‘pop stars’ da internet, mas simplesmente escrever pra sua família. Não existe o “melhor modelo”. Existem formas de uso do blog, que é simplesmente uma ferramenta. Nova, sim. Super bacana, sim. Mas que no fim deve ser explorada como apenas mais uma folha de papel A4.

Como serão os blogs daqui a 5 anos? Mais integrados à mídia tradicional? Consolidados como mídia?
Gabriel - Com o rápido crescimento no número de blogs, o grande problema vai ser encontrar conteúdo relevante. E aqui o modelo google de que os sites mais lincados são aqueles que irão me interessar já não funciona. Porque, como eu disse antes, o espaço local estará cada vez mais valorizado. Por isso as pequenas redes de blogs podem ser interessantes, pra agrupar pessoas de uma mesma região, ou que tenham interesses e abordem assuntos em comum.

***
Nesses quase 4 anos que se passaram da morte do Gabriel, passei por vários momentos em que a lembrança dele se impôs para mim.
Quando li Sinuca Embaixo D’água, da @carolbensinon, chorei. Especialmente num capítulo que me fez lembrar da amiga @mirellinha, que trabalhava no plantão da ZH naquela madrugada em que “um Palio bateu num poste na Mostardeiro e um jovem morreu“. Era o Gabriel, mas ela só soube depois.

Impossível não lembrar da sequência de telefonemas que tornou tão longa aquela manhã do dia 5 de dezembro de 2006. Receber a notícia da morte de um amigo de 22 anos e passá-la adiante…
Por muito tempo eu desci aquela lomba da Mostardeiro e lembrei dele. Isso ainda acontece, mas é mais raro.
Cada vez que vejo um amigo do Gabriel com o qual nunca tive muita intimidade eu lembro dele. A trupe do Insanus, especialmente.

Em maio último, quando eu andava por Buenos Aires na companhia da @bibiosorio, comentei com ela, não lembro exatamente por que, sobre a morte precoce do Gabriel. Nós não imaginamos o Gabriel adulto. Nós mal nos vemos como adultos hoje, 4 anos depois da sua morte. Mas a imagem que temos do Gabriel hoje é tão bonita e alegre… Imagem que só deixa alguém que parte aos 22 anos. Eu, que resisto a acreditar em destino, me perguntei: será que ele não tinha mesmo que partir aos 22?

Lembrei dele esses dias novamente. Quando li o texto do colega Gabriel Cardoso, que perdeu recentemente a irmã, Laura, aos 16 anos. Não conheci a Laura, mas lendo o post do Gabriel Cardoso foi impossível não pensar no Gabriel Pillar. Cardoso fala que sua irmã guardava o segredo da sua breve vida e por isso queria viajar para todos os lugares, ir a todas festas, comprar todas as roupas.

Nosso Gabi também devia guardar esse segredo. Por isso fez de todos seus amigos, foi a todas as festas, realizou todos seus projetos, riu de todas as bobagens, tirou todas as fotos, escreveu todos os posts…
Cada vez que penso em ter de novo um blog (ou pelo menos escrever mais aqui), lembro do comentário do Gabriel no primeiro post do meu extinto prefiroser.blogspot.com:

Gabriel Pillar disse:
“Sensacional. Lerei”

Pra mim foi um puta elogio e incentivo do guri que era “o cara do Insanus“. Nunca vou esquecer do meu primeiro contato com o Gabriel. Numa das primeiras aulas da Fabico, o professor passou uma lista pros alunos colocarem seus nomes e e-mails. O email do Gabriel era gabriel@insanus.org

Pensei: “que diabos é isso de insanus? Que guri engraçado…” E perguntei pra ele.
“É uma reunião de blogs que tenho com uns amigos.”

E é por ter lembrado do Gabriel que estou escrevendo hoje. Aqui no Coala, um blog que tenho com meus amigos.

“Ó a literatura…”

Não, não é sacanagem. Ouvimos isso mesmo vagando pela Festa Internacional de Literatura de Paraty naquele tom em que se oferece churrasquinho em estádio. Um ponto de vista é dizer que em Paraty até os ambulantes (ou mendigos, sei lá) tem cultura para oferecer para galera em troca de uns pilas. Mas asseguramos que isso é tão ou mais irritante que o simples pedido de dinheiro, até pela absoluta falta de constrangimento de importunar quando o produto oferecido é um poema declamado (sempre declamado), por exemplo.

Nosso objetivo para amanhã é vestir o coala Moreno com a plaquinha “POETA DO SILÊNCIO” e fazer o contrário do recorrente: se não pagar, ele declama. Asseguro arrecadação recorde.

Eis o mais irritante da Flip, logo a frente da escola baiana de prestação de serviços e do barulhento comportamento de horda das jovens senhoras com tempo de sobra, claramente o público majoritário do evento.

The book is on the tables

A boa notícia da Flip até agora foram as mesas, sobretudo as que os autores discorrem sobre seus processos criativos, tema que interessa bastante este coala aqui, mas que exige um post mais apurado em um futuro bem próximo (palavra de escoteiro).

As demais palestras foram sobre o passado, presente e futuro do livro. Depois de uma primeira exposição em que a mediadora apresentou uma estranha obsessão sobre a pornografia durante a Revolução Francesa (é, também não entendemos bem o link, bem como os palestrantes), a conversa fluiu entre o CEO da editora Penguin, John Makinson e o ex-jornalista e atual diretor da biblioteca de Harvard, Robert Darnton.

Entre debates como a melhor forma de digitalizar um conteúdo respeitando direitos autorais, o que mais impressionou O Coala foi o que Darnton chamou de “chamado ao autor para que desça do seu pedestal.” Ou seja, o futuro da literatura, mais do que deixar o papel de lado, seria o de se inserir na bagunça multimídia de todo o resto. Em um tablet, um romance será comparado a um DVD, em que há comentários do autor, trechos cortados, cenários que remetem à história, quem sabe uma trilha para alguns capítulos, cenas de uma eventual adaptação para o cinema e todo o tipo de material extra que pode interessar aos leitores.

Nada de tão intrigante aí, não fosse, segundo os próprios autores presentes no evento, a literatura hoje um produto de um hábito tão particular e até doloroso que é a escrita autoral. Ou seja, o livro muda facinho, dureza vai ser mudar os escritores…

Nos próximos capítulos, os autores e seus problemas =)

Três troços tri e um nem tanto

Esse post é uma menção honrosa ao hat trick de matérias legais de Política que li hoje. Nada que vá mudar o mundo, mas uma boa chance de rasgar uma seda para os colegas

Reportagem Especial de ZH – 21/7

Quando abri a Zero Hora de hoje e vi que a reportagem especial era sobre jovens na política, pensei “coitada da Marcela”. Pois bem. Há poucas coisas tão batidas quanto matérias desse tema: se acha um sujeito entre 16 e 18 anos que é eleitor por opção, ele diz que é importante exercer a cidadania, lamenta que a galeri é meio bitolada sobre o assunto, mas pondera que os políticos fazem por merecer o descrédito por causa da corrupção e fica nisso. Além de chata e óbvia, a matéria é cheia de cascas de bananas para o repórter escorregar e cair no ridículo, tipo usar gírias, fazer fotos dus muleque de skate mostrando o título de eleitor, aquela coisa… O índice de leitura, merecidamente, é proporcional à qualidade.

Pois a coalinha Marcela Donini escapou de tudo isso fazendo o básico: texto simples embora sem subestimar a inteligência do leitor, sóbrio e o principal: cases muito bons. As três histórias em que a reportagem se ampara mostram jovens (palavra que só velho usa, #ficaadica) que fazem política da forma mais moderna e aplaudível, por meio de bandeiras que defendem. Não sei se em termos de leitura ela vai além do formato citado acima, mas está aí uma reportagem que, se não é a reinvenção da roda, pelo menos tem algo para te dizer. Vai bem além da obrigação institucional de usar o selo jovem da empresa em uma matéria de eleições.

Matéria aqui, cases aqui, aqui e aqui, mais um texto aqui e meus parabéns a quem publicou tudo isso separadamente. Aconselho ler tudo junto na versão virtual.

Paulo Germano e Alceu Collares – ZH de 19, 20 e 21/7

Não lembro de uma campanha que tenha sido mais baixa do que a de Alceu Collares para a prefeitura de Porto Alegre em 2000. Contra Tarso Genro, que naquele tempo se elegeria prefeito mesmo que se candidatasse contra Jesus Cristo, Collares se lambuzou em imagens como a do relógio dos 500 anos sendo depredado e bateu abaixo da cintura o tempo todo. Nos tempos em que eleição no RS ainda era uma briga de foice entre dois lados e terceira via uma viadagem, ele conseguiu ao menos um segundo turno, quando bateu mais ainda. Houvesse YouTube na época (esse vídeo aí embaixo, dos mais amenos, é o único que encontrei), se saberia porque é de uma cara de pau sem tamanho vê-lo apoiar Tarso agora.

Mas cara de pau não é problema para Collares e felizmente nem para o repórter a cobri-lo, o Paulo Germano. Desta combinação vêm as melhores reportagens e a mais genial entrevista das eleições no RS até aqui, sintetizada com perfeição também pelo Iotti. Cutucando Collares sobre o seu salário como conselho de Itaipu (!) e sobre a freqüência com que o conselho se reúne, Paulo houve de Collares que ele não revelará porque está sentindo o “espírito de porco” do repórter. Pois o espírito de porco do PG, bem como seus lides paridos depois de 43 cigarros e 18 entrevistas, é o que de melhor o jornalismo de Política ganhou nos últimos tempos no RS.


Época > Veja

Antes um preâmbulo: não sou contra o jornalismo pau dentro (termo cunhado pelo caro Gabriel Brust) da Veja. Acho lindo uma revista que tenha coragem de jogar o papinho de isenção às favas e descer a lenha em quem achar que deve. Porém o problema desse tipo de jornalismo é que quanto mais ele se assume parcial, mais ele precisa de fatos para amparar tamanha contundência. Pois a matéria de capa da Veja da semana passada, além do gosto cada vez mais questionável das imagens, é toda discurso e nada jornalismo. O único fato da reportagem: o programa de governo de Dilma teve de ser abrandado retirando medidas mais radicais. A revista não apura sequer se a versão oficial – a de que essas partes do programa já haviam sido retiradas e foram divulgadas por engano – é verdadeira, apenas especula que não. Em cima disso, seis páginas (sério, seis!) de puro discurso: nenhuma apuração, nenhum fato novo.

Nesta semana, mesmíssima coisa. O único fato da matéria com chamada de capa é que Lula tomou seis multas da Justiça Eleitoral. Em cima isso, duas páginas de pau no Lula requentando informação e ironizando as presepadas presidenciais. Aí fica difícil defender. Agora tire um tempo e compare com a quantidade de informação contida na matéria de capa da concorrente, a Época, sobre o enriquecimento dos políticos. Assim como já havia ocorrido pelo menos em dois grandes temas – o acidente da Air France e a ação de resgate que matou Eloá – a Época dá uma surra constrangedora na Veja, e isso vem acontecendo com cada vez mais frequência.

Vou ficar devendo os links em razão dos sites impraticáveis e de conteúdo exclusivo de Veja e Época, igualmente ruins nesse ponto.

Christophe Honoré e a impossibilidade do amor em três cenas

Eu não imaginava que a vida de casada fosse tão complicada.
Quando você é solteira, é responsável apenas por si mesma.
Quando se casa… estar bem sozinha não é o bastante.

Diálogo do filme In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai

Em coluna publicada no final do mês de maio na Folha de São Paulo (disponível também aqui), Contardo Caligaris, falando de amor, lamentou a valorização, em nossa cultura, da idealização da ruptura, da aventura, e o fato de que só a hora do “apaixonamento” importa. Caligaris citou um filósofo francês chamado Alain Badiou, que define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento. Em última instância, ele crê na obstinação como o fator determinante para o triunfo do amor. A grande questão é que, apesar de todos o desejarem, ninguém parece querer fazer esse esforço por ele. Uma contradição que o polonês Zygmunt Bauman tentou explicar em Amor Líquido e que está toda hora dando tapas de luva na nossa cara. Para desespero de todos. Mas também para a felicidade da arte. Neste caso, especificamente do cinema.

Christophe Honoré, um dos poucos que conseguiram utilizar o legado da Nouvelle Vague para fazer um cinema moderno, estampa essa condição em pelo menos três de seus filmes. E o faz com uma leveza que contrasta com a peso de tal condição. Em A Bela Junie (La Belle Personne), Em Paris (Dans Paris) e As Canções de Amor (Les Chansons D’Amour), a eterna dúvida da humanidade em relação ao amor aparece como fio condutor dos roteiros. Dirigindo elencos que emanam sensualidade (fora o fato de os filmes serem falados na língua dos amantes, o que por si só já é um deleite), o francês de 40 anos converte dor e angústia em beleza. Transforma em arte o que é próprio da vida, e, assim, atribui mais sentido ao existir – ainda que não sejam fornecidas respostas, e sim reforçadas as dúvidas.

Em três cenas dos filmes citados, a dicotomia buscar versus manter dá ao amor uma condição de eterna impossibilidade em função do seu constante fracasso. Cada uma delas mostra fases distintas do amar, mas todas retratam o mesmo – a derrota do amor diante das circunstâncias da vida. Medo, quebra e desesperança. Mas que também poderiam ser chamadas de antes, durante e depois do amor.

A Bela Junie e o medo de amar
Em um dos últimos diálogos de A Bela Junie, Junie (Léa Seydoux) fala para Nemours (Louis Garrel):

Eu pensei que houvesse uma coisa que você gostasse em mim. Minha franqueza. Imaginar que você pode não mais me amar é muito pior para mim do que aquilo que você chama de regras que fiz para mim mesmo. Eu sei que somos duas pessoas. Então, como qualquer um, nós podíamos estar juntos. Mas por quanto tempo? Se nós somos duas pessoas normais, por quanto tempo nosso amor vai durar? Amor eterno não existe, nem mesmo nos livros. Então amar significa por um tempo determinado. Seria um milagre para nós. Não somos diferentes das outras pessoas.


Em determinado momento, Nemours interfere:

Você não pode resistir sozinha ao seu amor.

Junie resiste ao seu amor. E sofre por isso. Sofre por ter medo de se entregar ao desconhecido, ao que pode fazê-la sair do eixo, desconcertá-la. Está estampado no seu rosto de beleza serena, na sua pele branca, nos seus olhos distantes, nos seus longos cabelos negros. Ela carrega consigo esse fardo. Uma condição que parece ser eterna. Isso a torna distinta. Desejada por ser inacessível, por parecer estar acima do amor.

Ao dispensar Otto – que se mata após o rompimento –, Junie diz que vai embora porque não quer se apaixonar por uma pessoa que sabe estar apaixonada por ela (Nemours, ainda que não revele a Otto quem é). Junie é franca, racional. Sabe da possibilidade de o romance com Nemours acabar em desilusão e, ao contrário das outras pessoas que se envolveram com o belo professor, prefere nem começar o caso. Mas a dor da paixão aparece e a faz sofrer antes mesmo ter experimentado o que tanto deseja.

Bauman, se por acaso topasse com Junie em um mundo onde os filósofos encontram personagens de cinema nas ruas de Paris, talvez dissesse a ela que qualquer sabedoria em relação ao amor só é possível após vivê-lo. Diria, arrisco dizer, para Junie ouvir Nemours, e não resistir ao seu amor. Para o sábio velhinho polonês que curte um cachimbo, a bela francesa é uma tola que pouco ou nada sabe sobre o assunto. Entre uma tragada e outra, ele talvez até lesse para ela o trecho abaixo, que está em Amor Líquido.

Enquanto vive, o amor paira à beira do malogro. Dissolve seu passado à medida que prossegue. Não deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergência. E não sabe o que está pela frente e o que o futuro pode trazer. Nunca terá confiança o suficiente para dispersar as nuvens e abafar a ansiedade. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável.

O rosto pálido de Junie denota o temor em relação a esse futuro incerto. É o semblante que Christophe Honoré dá à impossibilidade do amor. A personagem de Léa Seydoux é a personificação daquilo que sentimos quando pensamos na finitude do que gostaríamos que fosse eterno. É o fantasma que assombra a vida de todos os amantes. Olhar pra ela é ter a certeza de que tudo irá acabar - mesmo sem ter começado. Que a separação e a desilusão um dia virão. Que o abandono e a solidão são inevitáveis. Olhar para Junie é olhar para o futuro. Sua beleza representa a morte da esperança. A morte prematura do amor.

Em Paris e a quebra
No filme Em Paris, Paul (Romain Duris) sofre com fim do seu relacionamento com Anna (Joana Preiss). Cansado de não encontrar alternativas para sair da fossa, ele pega o telefone para tentar por um fim à sua angústia. O resultado é a bela cena abaixo. A música é Avant la haine (Antes do ódio), escrita por Alex Beaupain – que assina as trilhas musicais de vários filmes de Honoré.


A letra mostra um momento de dúvida. Como superar o fim quando ainda apostamos no amor? Como saber quando o amor, na realidade, deixou de existir? Que aquilo que sentimos não é mais amor, e sim a falta, a dor da ausência, a lacuna deixada pelo próprio amor? Paul e Anna cantam essas incertezas.

Ele reconhece o seu estado agonizante e tem uma “ideia terrível”: terminar qualquer tipo de relação que ainda exista com Anna “antes do ódio”. Antes que sua condição deplorável comece a determinar seus sentimentos por quem até então era devoto. Ele não quer odiá-la, por isso aposta na separação. Anna diz que não – ainda que também não tenha certeza do sim. Diz que um beijo faria tudo isso passar.

No belo dueto, Honoré nos mostra novamente a impossibilidade do amor, mas agora no momento da quebra, da ruptura. O sentimento deixa de existir e pega Paul e Anna despreparados. Querem ficar afastados antes do ódio, mas querem permanecer juntos porque ainda acreditam no poder do toque. Eles querem continuar se amando. Mas isso já não é mais possível.

Honoré transforma em poesia o exato momento (que parece infinito) em que nada resolve. Ela diz que prefere “as tempestades do inevitável” a ter de perder definitivamente aquele amor. Mas sabe que, naquele momento, não podem e nem conseguiriam estar juntos. Ainda que talvez seja, no fundo, o que eles querem. Sentem falta um do outro, da companhia, do carinho. Resta apenas uma angústia sem fim.

A desesperança em As Canções de Amor
No primeiro terço do musical As Canções de Amor (Les Chansons D’Amour), Julie (Ludivine Sagnier), Ismaël (Louis Garrel) e Alice (Clotilde Hesme) vivem um triângulo amoroso instável. As incertezas a respeito de uma relação que causa estranhamento em quem está de fora os fazem levantar dúvidas sobre a possibilidade de se levar aquilo adiante. Desconfortáveis, expressam – na maioria das vezes de forma leve e divertida, como em Je n’aime que toi – a insatisfação diante da falta de certezas sobre algo que não é visto como normal. Até que Julie morre, e a dúvida dá lugar à desesperança em relação à possibilidade do amor.

Sem o equilíbrio representado por Julie, as outras duas pontas do triângulo buscam maneiras de seguir em frente. Alice se envolve em uma relação heterossexual que logo se mostra um equívoco. Já Ismaël se vê em uma situação até então improvável. Seduzido por Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet), não sabe se sua dúvida em ceder ou não àquela aventura homossexual é resultado da sua vontade ou da confusão que virou sua vida sem Julie. Apaixonado, Erwann trata de questionar o porquê da resistência de Ismaël cantando em dueto com o personagem de Louis Garrel. A música é As-tu déjà aimé?, mais uma vez de Alex Beaupain, que assina a trilha do musical.


Erwann pergunta a Ismaël se ele já amou pela “beleza do gesto”. O personagem de Garrel diz que sim, mas que não foi nada fácil, que muitas vezes não foi bem tratado. Erwann insiste e diz que quando ousamos amar somos simplesmente invadidos pelo perfume dos males do amor. Ismaël retruca dizendo que os amores passageiros e sua carícias efêmeras esgotam nossos esforços. Então Erwann se rende ao desiludido Ismaël, e termina responsabilizando o amor por toda a nossa desgraça.

Se antes da morte de Julie os personagens se questionavam sobre se o que sentiam era realmente amor, com a perda, a dúvida dá lugar ao desencanto. À tristeza de ter consciência tarde demais. À desesperança de que um amor como aquele pode nunca mais se repetir. No momento em que não estava claro o flerte de Erwann, Ismaël canta uma serena melancolia diante do que parecia imutável – a impossibilidade do amor.

Mas no final, Ismaël acaba se rendendo a Erwann e a uma relação totalmente diferente de tudo o que havia vivido. Uma esperança para o amor?

Sobre amor, cinema e vida

Lá pelo começo de maio, Marcelo Costa, o editor do site Scream&Yell, escreveu um post tocante no seu blog. No texto, ele fala um pouco da alegria de se dar conta, em meio ao turbilhão da vida, de que amamos algo de uma maneira difícil de descrever com palavras. No caso dele, a música. De como ela moldou a sua vida, de como construiu sua personalidade e o fez encontrar as pessoas que hoje fazem parte do seu cotidiano.

Venho pensando bastante nesse texto nas últimas semanas. Entendo muito. Ele diz que o som que invade o seu coração o faz uma pessoa melhor. Ao ler isso, me dei conta de que sinto algo parecido. Nem tanto pela música, mas pelo cinema.

Como Marcelo Costa, não sou capaz de descrever esse amor como eu gostaria, mas quando entro naquela (em geral) grande sala escura, sinto que minha vida está prestes a se tornar um pouquinho mais completa. Parece que, ao ser envolvido por mais uma trama de ficção, outro tijolinho é encaixado na obra de construção de sentido da própria realidade. E após duas horas, sair e ter os primeiros pensamentos a respeito de mais uma experiência cinematográfica é ser invadido pela sensação de estar se tornando uma pessoa um pouco melhor. Ainda tonto com a claridade, sentir que mais um trecho desse misterioso caminho chamado vida ficou menos obscuro. Perceber que a sétima arte pode iluminar a existência.

Lost in Translation
LIT: quanto eu mais entendo Charlotte, mais eu me entendo

Não estou dizendo que o cinema seja capaz de esclarecer todas as dúvidas existenciais do universo. Se fosse assim, eu, você e o resto do planeta provavelmente estaríamos assistindo a um filme qualquer e não aqui prestigiando mais uma opinião publicada n’O Coala. O que eu queria destacar é a capacidade que a imagem fotográfica em movimento tem de gerar significados contando estórias de uma forma muito parecida com a usada pela literatura. A diferença fundamental em relação aos livros é justamente a imagem, mais especificamente o que Jacques Aumount chama de “prazer pelo reconhecimento”. Diz ele que nos sentimos bem quando uma experiência visual nos faz lembrar de algo que já vivemos. Anota aí, caro leitor: “o prazer pelo reconhecimento”.

Com o aperfeiçoamento da montagem, do uso das trilhas sonora e musical e de determinadas estéticas cinematográficas, o conceito de Aumont ganha mais força e se torna capaz influenciar a percepção que temos da própria realidade. É a vida se apropriando da arte, da ficção, para nos ajudar a encontrar a razão de estarmos aqui.

Há mais ou menos um ano, contei como a ficção (a cinematográfica, no caso) influenciou a minha percepção diante de uma das mais marcantes experiências da minha vida: a visita a Auschwitz. No texto Auschwitz e o poder da ficção, publicado aqui n’O Coala, descrevi como os filmes os quais eu havia visto sobre campos de concentração vieram à tona enquanto eu caminhava pelos barracões, e como a ficção havia me afetado talvez mais do que a própria realidade vivenciada naquele momento.

De lá pra cá vi perto de cem filmes, e posso dizer que essa noção cresceu de uma forma exponencial. O cinema está a tal ponto dentro do meu cotidiano que várias vezes por dia imagino a minha vida como uma própria obra cinematográfica. O roteiro varia. Vai de uma comédia romântica com a Meg Ryan até aos clássicos da incomunicabilidade do Antonioni. Mas o cinema está sempre ali comigo, do começo ao final de cada dia. É o “prazer pelo reconhecimento” transbordando sua própria definição. Ao invés de enxergar minha vida a partir do que passa na tela, aplico o conteúdo (filmes) e a técnica cinematográfica à própria realidade. No início do livro Mãos de Cavalo, Daniel Galera cita uma frase de Nicolas Cage que define bem o que eu quero dizer.

Eu caminhava para a escola e ia imaginando planos em que uma grua subia aos poucos e me via lá embaixo como um pequeno objeto no meio da rua, caminhando para a escola.

É engraçado, mas uma das minhas memórias mais remotas é parecida com essa. Quando eu era pequeno (não sei bem que idade), me perguntava o motivo de “as cenas da minha vida” nunca cortarem para um outro núcleo de personagens, para que eu pudesse saber o que estava se passando na casa de conhecidos, por exemplo. Era assim que acontecia nas novelas. E eu queria que a “minha novela” também fosse assim. Naquele momento, sem saber nada de cinema, se é que eu já havia visto um filme, eu editava a minha vida.

É isso que eu faço agora de forma cada vez mais consciente. Óbvio, vamos deixar claro, que me refiro a um conceito. Estou longe de ser como Sandy Lyle, o personagem de Philip Seymour Hoffman em Quero Ficar com Polly. Pra quem não se lembra ou não viu o filme, ele é um ator fracassado que contrata dois caras para produzir um documentário sobre si. Nesse sentido sou mais Tom, o personagem de Gregório Duvivier em Apenas o Fim, o interessante filme de Matheus Souza. Tom é um cara que passa imaginando roteiros e maneiras de filmar as situações que ele próprio vive, além de estar sempre aplicando referências cinematográficas e da cultura pop à sua vida.

Tom, se vocês me permitem opinar, caros 17 leitores d’O Coala, enxerga arte em sua própria existência. Às vezes tragédia, às vezes comédia. Ainda que tragédias, em geral, sejam bem mais significativas e inspiradoras. Apenas o Fim é um bom exemplo disso.

É dessa forma que eu enxergo o cinema. Além da tela. Além da sala escura. O cinema me acompanha em todos os lugares, em todas as situações. Enquanto vivo o roteiro da minha vida, imagino planos, cortes e trilhas musicais. E isso me faz bem, me completa. Parece que ao absorver a “impressão realidade” (se me permitem mais uma citação, dessa vez Christian Metz) que o cinema nos impõe, quando a aplico à realidade, me capacito ainda mais para entender e enfrentar essa mesma realidade. Além disso, deixo a vida mais bela. Deixo a vida mais parecida com uma obra de arte.

Acredito que muitos de vocês, caros leitores d’O Coala, sintam isso de alguma forma. O coala LF, por exemplo, dia desses me confidenciou que ele enxerga sua vida como um seriado. A lógica é a mesma. E pode ser aplicada a outras formas de arte, como a literatura, o teatro, a pintura ou a música, como é o caso de Marcelo Costa. Depende de cada um. O meu caso é o cinema. E o seu, caro leitor, qual forma de arte dá mais sentido à sua vida?

Impressões sobre a OTFF em BsAs

Sabe quando o desempenho de um músico é tão intenso que o seu instrumento parece ser uma extensão do seu corpo? Quando seu esforço para extrair o máximo dessa união é tão grave que resulta em uma espécie de esgotamento físico misturado a uma redenção artística? E mais. Sabe quando um time pequeno joga em casa contra um grande, com o apoio de sua pequena torcida dentro do seu estádio acanhado, às vezes nem tão bem conservado, mas que ele conhece muito bem?

Daria pra resumir assim a apresentação da Orquesta Tipica Fernández Fierro (OTFF) no Club Atlético Fernández Fierro (CAFF), no bairro Abasto, em Buenos Aires. Um lugar que, segundo já escreveu o jornal Página 12, é uma “rareza oculta de la ciudad”. Antiga oficina mecânica transformada em lugar para os ensaios da Orquesta, o CAFF respira uma autenticidade rara em tempos de padronização das casas de espetáculos.

Tudo parece improvisado. As cadeiras e mesas são todas diferentes umas das outras, como se tivessem sido levadas pra lá quando não tinham mais utilidade nos seus lugares de origem. No teto, um globo de espelhos contrasta com a rusticidade do que mais parece um antigo ginásio. No lado oposto ao do palco, uma pequena arquibancada de três degraus. Na entrada, uma mesa parecida com antigas classes de colégios serve de bilheteria. No bar, uma boa carta de cervejas e alguns petiscos. Tudo isso à meia luz, dando um clima de sarau a um enorme galpão transformado em casa de shows.

É nesse clima de “jogando em casa” que a Orquesta Típica Fernandez Fierro se apresenta todas as quartas no CAFF – quando não está em turnê pela América Latina ou Europa. No último dia 2 de junho, os 12 integrantes iniciaram mais um show como se fosse o último, tamanha é a entrega de todos no palco. Walter “Chino” Laborde, o vocalista, abriu a noite com Bluses de Boedo e mostrou toda intensidade da OTFF.


“Chino” é uma atração à parte. Às vezes aparece com uma capa, um capacete de motoqueiro (beijo, Bibi), ou vestindo uma gravata sobre uma camiseta. Assim que cada música acaba, some na penumbra do palco. Quando vê os outros integrantes já estão iniciando a música seguinte – instrumental, no caso – sem ele. E assim segue. Canta uma e sai. A OTFF toca. Então ele volta, canta outra e sai novamente. Sorrateiro sai, sorrateiro entra. Tem vezes que nem sabemos se ele está lá ou não, até que ouvimos sua a voz grave encher novamente o salão do CAFF.

Mas “Chino” não está lá sozinho. Além dele, quatro violinos (Federico Terranova, Pablo Jivotovschii, Bruno Giuntini e Juan Carlos Pacini), um violoncelo (Alfredo Zuccarelli), um contrabaixo (Yuri Venturín), quatro bandoneóns (El Ministro, Julio Coviello, Pablo Gignoli e Eugenio Soria) e piano (Santiago Bottiroli) formam a Orquesta Típica Fernández Fierro.

A música que sai da união desses caras representa o que Buenos Aires tem de melhor, de autêntico, de moderno. O som é ágil, acelerado como o centro da cidade em dias úteis. Mas também é íntimo, soturno, às vezes triste. Como na música Larga Noche (Es sólo miedo mi noche / Miedo lento, lento y largo / Siempre lento, siempre dentro / Dentro de uma larga noche). Como pode ser caminhar pelas transversais desertas que ligam a Corrientes à Córdoba em Abasto em uma longa e fria noite de inverno.

A apresentação é de entrega, de raça, mas com a sensibilidade de uma das cidades mais cosmopolitas das Américas. Onde o novo convive com o antigo a cada esquina. Onde é possível desacelerar do dia a dia apenas abrindo a porta de um café. Fugir do trânsito se refugiando em umas das grandes e quietas áreas verdes da cidade.

Assim é a OTFF no CAFF. Um grupo que consegue sintetizar a cultura portenha fazendo música local, mas universal. Moderna, mas tradicional. Descontraída, mas grave. Um show curto, intenso, em um lugar autêntico. Exatamente como Buenos Aires.

Eu, Kevin e eu mesma

A história de como eu cheguei ao show de Kevin Johansen, em Buenos Aires, e o show em si. Você pode ler toda a “epopéia” até o lugar do concierto, ou simplesmente partir do princípio de que foi uma baita indiada sob chuva até eu finalmente chegar lá, pulando para depois dos 3 asteriscos (***).

Assim que eu botei o pé no albergue, ao retornar de uma nova caminhada pelo centro de Buenos Aires, começou a chover demasiado.

Em cinco minutos, a calle Charcas, em Palermo, estava inundada. E eu pensando em como sairia dali em um par de horas para fazer o que, afinal de contas, me levara à capital portenha. O show de Kevin Johansen aconteceria na Ciudad Konex, um lugar aberto segundo o que eu podia ver nas fotos do site.

Por las dudas, liguei pra saber se, em função da chuva - que àquela altura já tinha cancelado as festividades do Bicentenário na 9 de Julio, - também se suspenderia o concierto. Não, para minha sorte. E para o meu azar, não parou de chover jamás

Deixara as galochas em Porto Alegre, mas havia comprado um paraguas na Florida por 11 pesos. De All Star, saruel jeans e um casaco de lã, saí rua afora.

Primeiro obstáculo: atravessar a Charcas em direção à Avenida Santa Fé. Com a água encobrindo metade das rodas dos carros estacionados por ali, não tive outra alternativa se não caminhar alguns metros até a esquina. Havia muita água, mas menos, e, com um pouco mais de 1 metro de pernas, consegui atravessar sem molhar os tênis. Primeiro obstáculo: ok.

Segundo obstáculo: chegar à estação do Subte na Santa Fé com os pés secos. Segundo obstáculo: fail.

Era o dilúvio. O horror, o horror. As ondas vinham em minha direção, e eu quase subindo nos portões de ferro das lojas já cerradas, na pontinha do pés, tentei em vão mantê-los secos. Com um pequeno risco de o metrô parar, desisti de pegá-lo. Já estava quase desistindo de ir ao show. Sério.

Mas, não, né.

Tudo bem que não era a banda da minha vida, mas, naquele momento, era tudo o que eu queria fazer, e tudo o que eu tinha. Toda a minha vida, naquela hora, se resumia em um guarda-chuva, 70 pesos e o ingresso no bolso. E os ônibus, porque táxi, sabe como é em dia de chuva…

Olhei as pessoas na minha volta, poça adentro, sem pestanejar, pra chegar ao outro lado da avenida ou entrar no ônibus e decidi: eu também vou. Assim que comecei a correr para transpor metade da larga pista barrio-centro para chegar no ônibus, logo que meu pé ficou cem por cento submerso, naquele segundo exato frio e molhado, me dei conta de que, aquelas pessoas, finitas suas jornadas, estavam indo para casa, tomariam um banho quentinho e trocariam de roupa. Eu estava indo para um show. E sabe-se lá que horas voltaria.

Molhei um pé, o outro, a canela da primeira perna, a canela da segunda, e o primeiro pé entrou num buraco, e eu molhei o primeiro joelho e quase torci o primeiro tornozelo, e entrei no 29. Parabéns, Marcela. Que bom que é o show da tua vida…

Vou omitir detalhes do meu desespero dentro daquele ônibus, perguntando pra todo mundo onde ficava a tal Ciudad Konex que ninguém parecia ter ouvido falar fora o brasileiro da recepção do meu hostal. Uma viagem sem fim por trechos escuros da cidade inundada. Só pra constar: esqueci que estava sem moedas, o que em Buenos Aires significa não poder andar de ônibus. A não ser que tu tenhas a sorte de ser conduzido por um chofer gente boa, como o do 29.

Desci numa rua sem luz, a cerca de 7 quadras da Konex. Só prédios residenciais, exceto por uma fruteira cuja dona me aconselhou a esperar um táxi. Menos de 10 minutos depois ele veio, mas eu já estava correndo em direção à Avenida Sarmiento. Correndo. Me joguei pra dentro do táxi, e um senhor uruguaio me largou na Konex dois minutos, 5 pesos e 4 quadras escuras e desertas depois.

***

Eram 8 e pouco da noite. Havia 5 bandas/artistas locais para tocar antes do Kevin, que deveria subir ao palco às 23h30, desconsiderando o atraso de 45 minutos com que a primeira banda começou.

Kevin pegou o microfone às 0h13. Deu tempo de ir ao banheiro, tirar os All Star de cano médio, torcer as meias, inspirar, expirar, suspirar, repensar, tomar um chá, comer un pancho. Cada meia hora de uma atração desconhecida me deu algo com o que me entreter: a beleza da vocalista de Vaqueros Paganos e o tecladista que parecia o Primo It (Família Adams, saca?); a voz de Nina (Nina y El Lobo, se chama a banda que faz releituras em jazz de grupos como Pearl Jam e Radiohead e artistas como Fiona Apple e PJ Harvey - recomendo); a doçura de Lucio Mantel, que nada tinha que ver com aqueles pilares de concretos entre o palco e o público, sentado no chão frio; o bom humor e a criatividade da megabanda El Kuelgue, recomendo; e a baterista do grupo eletrônico Entre Ríos que mais parecia ter saído de um cosplay.

Finalmente, surgem Kevin e os The Nada, vestidos de gauchos. O povo se levantou do chão, e eu já não me arrependia de estar ali, sozinha.

Kevin e a banda são excelentes ao vivo. Havia muita sintonia entre eles e o lugar e eles e o público da cidade onde o norte-americano se criou. Kevin contou que, 24 de maio, o dia seguinte, era aniversário da sua chegada à Argentina. Um show, portanto especial, além de toda a festa do Bicentenário da Revolução.

Ele cantou mais suas músicas que bebem nas vertentes latino-americanas, como Cumbiera Intelectual, Daisy, Fantasmas de Carnaval, Buenos Aires Antisocial Club e pediu licença para una más tranqüila, Desde que te Perdí.

Na segunda metade do concierto, pediu licença novamente, desta vez à banda, chamou apenas um dos violeiros à frente, pegou um violãozinho que me parecia de brinquedo e veio com essa: Hotel California, do Eagles. Trocou “wine” por “sangria”, largou um “no me acuerdo la letra, pero it doesn’t matter…” antes de chegar ao refrão, e nos apresentou Hotel Patagonia.

Antes do cover seguinte, pediu desculpas pelo atraso e disse que, aquele era um día como si fueran dos. Não pude concordar mais. Mas ele completou: do jeito que estava terminando o dia, não podia ser mais perfeito, e me veio com essa: Just a Perfect Day. Lou Reed! Chorei.

“Y ahora uma canción de protesto”, bradou. Trocou o violãozinho por uma guitarra. Rosa. Com um adesivo enorme. Da Hello Kitty! E me veio com essa: Take on Me, A-ha. (Ah, antes ele puxou só a intro de outros dois hits, um dos 90 e outros dos 2000 - I’m too sexy e I Know You Want Me).

Morri.

* Não achei vídeos do show do dia 23 de mayo, mas essa versão de Hotel California + Take on Me já dá uma ideia do que estou falando.


Coala Power

Uma e outra mãozinha pra cima, dois ou três casais se beijando, um “uh-hu” lá do fundão e foi mais ou menos essa a participação da plateia no show da Cat Power ontem, em Porto Alegre. Não que alguém realmente se importasse com isso. Naquela que foi a maior concentração indie por metro quadrado já reunida no Bar Opinião, coube ao público o mesmo papel de quem baixa o volume da TV para ouvir melhor o passarinho na janela: escutar e admirar. Qualquer coisa além disso seria uma surpresa que não veio.

O que havia para ser admirado ali não faltou. Entre a timidez e o charminho no palco, Cat Power entrega uma voz crua, grave e mesmo assim límpida a ponto de, não raro, ser quase atrapalhada pelos míseros dois instrumentos que a acompanham – um teclado e uma guitarra, na maioria das músicas.

Agora, por ter matéria-prima de sobra na garganta, é nítido que falta alguma coisa na interpretação da moça. A impressão que toda música cantada por Cat Power deixa, especialmente em um álbum covers como Jukebox, é de ficar sempre nos 93, 94% daquelas grandes canções que te arrebatam. E se isso é mais do que o suficiente para cozinhar em um dia de chuva, ou para encher o ipod em uma viagem sonolenta, esses poucos pontinhos percentuais são tudo o que se precisa para transformar uma mera experiência contemplativa em um show de verdade.



Metal Heart, beeem de perto

Carta à Maneco

Maneco,

Eu era pequinino quando aprendi a te amar. Éramos tão puros. Eu te encontrava depois de ter passado a tarde no colégio jogando algum esporte para o qual eu não tinha talento. Você era anunciado pelas doces melodias do Ivan Lins. Era tanto romance, tanto drama, tanta melação que eu juro que (quase) acreditei no amor.

Crescemos juntos. Eu levando minha vidinha, mas sempre acompanhando as histórias que você inventava para justificar que a Regina Duarte ainda estivesse no horário nobre. Bossa nova, cenas de gente vivendo uma vida feliz no Leblon, imagens do Rio com aquele filtro meio laranja e desfocadas pra que ninguém pudesse te processar… Você fez história.

Juliana Paes, Alinne Moraes, Gianecchini, todos estrearam proclamando linhas suas. Troca de bebês, leucemia, lesbianismo, alcoolismo, espiritismo, você falou de tudo. E de um jeito que Glória Perez adoraria saber fazer. Nem as empregadas domésticas foram as mesmas depois de você.

Mas de um tempo pra cá… Pra ser mais preciso, desde Páginas da Vida, você tem perdido um pouco a mão. Primeiro foram as cenas desnecessárias, depois a profusão de núcleos e personagens, na sequência uma reiteração exagerada das suas marcas registradas até o ponto que chegamos hoje.

Atores escalados, ou melhor dizendo, reservados com seis meses de antecedência pra nem mesmo aparecer na novela. Nem uma ceninha. Suas sinopses estão tão prolixas que precisarias do três horários de teledramaturgia para conseguir desenvolvê-las do jeito que prometeu aos atores e revistas de fofoca. Até seu Rio está ficando rançoso, acredita?

Por isso, Maneco, queria te dar um toque. Não estrague a linda marca que você já deixou em nossos corações. Vá curtir seus netos, vá escrever minisséries. Deixe as novelas para Silvios de Abreu, Gilbertos Braga, Walcires Carrasco e para os outros Joões Manuel Carneiro que virão. Não queime seu legado.

Com carinho,

O Coala

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UPDATE: Maneco sempre diz isso, mas agora tô torcendo!

O melhor imitador de si mesmo *

Este é Fábio Junior, o melhor imitador de si mesmo. Ele despenteia o cabelo sobre a nuca igualzinho ao Tom Cavalcante faz. Grita brigaduuuu com tal propriedade que é (quase) impossível não ceder aos seus encantos, mesmo com quase 30 anos a mais do que eu.

Ouvir em uníssono a massa feminina berrando “Fabio eu te amooo! Fabio eu te amoooo!” foi uma experiência e tanto na noite de domingo. Nunca estive num lugar com tanta mulher e tão poucos homens, nem em festa em que mulher não paga, porque nestas, sempre tem uns magrão atrás das gatinhas. Gatinhas éramos poucas ontem: eu, @perecilaa, e duas adolescentes que certamente nutriam a esperança de ver o Fiuk subir no palco com o pai. Foi um domingo de presentear as mães (vós e tiazonas) com um ingresso pra ver o FJ bagunçar aqueles ralos fios grisalhos.

Fora dois cinqüentões que eu vi urubuzando as tias no hall do Teatro do Sesi, os homens que estavam lá eram maridos muito parceiros (afinal, era domingo à noite, hora de ver os gols da rodada) ou muito ciumentos pra deixar a patroa sair sozinha e plantar-se a poucos metros de Fabio Junior.

Vejam o casal logo atrás da gente. Os dois muito elegantes, na casa dos 50 anos. Ela em pé, sorridente, e ele, sentado e, inicialmente, indiferente. Esse era do tipo parceiro. Tanto que, em Alma Gêmea, no final do show, já estava em pé, batendo palma, enquanto a mulher balançava a cabeça sentadinha.
Já o casal logo à frente, à nossa direita, era composto de uma fã loira e cheinha e um marido gordo provavelmente ciumento. Os dois em pé, parados durante todo o show, até que o marido foi até a frente do palco fotografar FJ de perto (juro que não entendi…). Quando retornou à fileira onde estava sua loira cheinha, acenou para ela e apontou para a saída. Ela titubeou. Ele insistiu e a levou embora antes de Caça e Caçador! Ora! A melhor música da noite!

Enquanto pensava por que mesmo eu estava ali (afinal, ele só cantou a MINHA música no final), fui despertada dos meus pensamentos por um berro “GOSTOSO”, assim em caixa alta, grave (parecia uma fita k7 tocada em baixa rotação, como disse a Pri). Voz de homem. HOMEM! Eu disse, ninguém resiste… Deve ser esse charme MAROTO, essa coisa de dizer “pra caramba” a toda hora, de fazer comentários no meio das letras e, ops, se perder nos versos. Uma coisa meio, digamos, hippie, sabe? Logo na abertura, ele começou com um papinho assim: “Que lindo! Se a gente soubesse a energia liberada quando batemos palmas e blábláblá boas vibrações e.” “Lindo, lindo, lindo.” Foi só uma das várias idéias que começou e não terminou, ora por ser interrompido pela mulherada, ora porque, enfim… “caramba! Sejam felizes”

Se aproveitando do sucesso alheio, pra dar uma modernizada no repertório de 30 anos (em que faz variações do mesmo verso, tipo “Brilhante como uma estrela, leve e louco..” e “Felicidade, brilha no ar, como uma estrela“, FJ cantou Epitáfio (Titãs), Coleção (Ivete), e até um clássico de Raul (sem que ninguém tivesse pedido). Pra provar que ele é um ripongão de terno, FJ escolheu Tente Outra Vez (“Basta ser sincero e desejar profundo. Você será capaz de sacudir o mundo”).

Cantou “Mãe”, e eu juro, de onde eu estava, acho até que se emocionou mesmo. Mas o clima ficou muito família e a mulherada se sentou. Não cabia gritar “lindo, tesão, bonito e gostosão” enquanto ele fazia o papel de bom moço cantando “Mãe, mas como você mesma diz/ Trabalho com amor gera bons frutos“.
Mas são mais de 30 anos de estrada, e FJ sabe o que faz. Começou a cantar Pai e, logo após o primeiro verso (“Pai“) largou um suspiro tão performático que tive que rir. Mas a mulherada achou lindo.

Além da mãozinha no cabelo (quem curte?), os momentos de mais euforia no teatro foram 1. Quando, cantando “Senta aqui”, levantava a pernoca e batia com a palma da mão na coxa. Tipo, ele é muito malandro. Fiuk tem muito o que aprender com o pai…
2. Quando trocou a palavra “amigo”, no verso “serei seu melhor amigo”, por “marido”. Nossa! Ouvi orgasmos. Juro.
3. E a CEREJA DO BOLO (para usar uma expressão da galera presente no teatro), no momento de êxtase geral (including me), quando gritou, logo após a sequencia MATADORA de Alma Gêmea e Caça e Caçador: “Brigaduuuu!” Foi a única vez que ele gritou “Brigaduuuu!”.
Mas aí começou a cantar “Deus te abençoe, Deus te abençoe”, e foi a deixa para irmos embora. Ainda no banheiro, o ouvi voltar pro “Eu te amo! E se um grande prazeeeer, rola pelo a-aaaar, brilhante como uma estrela…”. Nem teve bis (pelo menos, até nossa saída). Mas ele repetiu umas quantas vezes o refrão. Várias vezes. O suficiente pra eu ficar cantando pelos próximos 7 dias.


*colaborou @perecilaa

Será o fim?

Por falta de cores mais vibrantes

O Big Brother é sim uma máquina de fazer dinheiro, polêmicas e, por que não, fãs. E se, na décima edição do reality, Dourado conseguiu não ser eliminado isso se deve aos motivos listados no post abaixo, mas, pra mim, principalmente a ausência de opções.
O assunto é velho e morto, mas vamos dar uma espiadinha nos reais concorrentes de Dourado para que você, candidato ao BBB11, saiba que erros não cometer.

alooooooka
Serginho

A persona mais engraçada da edição. Sérgio tem o dom dos mímicos de antigamente: olhar pra ele já era engraçado. Essa é uma característica boa para um candidato a milionário, mas… A Serginho faltou a inteligência. Não a das tiradas rápidas, tampouco as dos comentários venenosos que trocava com Michel, mas a de articulador. Não era possível identificar no Sr. Orgastic a sagacidade de um Jean Willis, de um Alemão ou de um Max. E uma das formas para ganhar o programa é fazer com que o público admire a inteligência do jogador. As outras são a pena e a identificação. Sérgio não conseguiu nenhuma.

Dicésar

O grande concorrente de Dourado cometeu o mesmo erro de seu colega colorido. A confusão mental permanente era um pouco do seu charme. Mas Dimmy perdeu a mão. Ou melhor, sequer soube que precisa medi-la. A falta de condições para rebater a alcunha de “falso”, dada por seu principal concorrente, fez com que a falta de noção da dlag soasse para alguns como maldade. Nessa, Dicésar, que tinha a melhor história pré-BBB, perdeu o paredão decisivo contra Dourado que orgulhava-se de ser mais real do que o rei.

Lia

A mulher da edição. Eliane fez o programa girar. É dela, inclusive, a provocação para a virada de Dourado no programa. No entanto foi o oposto de Serginho. Faltou à dançarina o lado leve. Sua bundinha maluca não conseguiu espantar o ar de mulher neurótica. E foi por isso que Lia foi eliminada frente a Fernanda, de quem falaremos em breve.

Cadu

Cadu teve muita, muita chance. Mas não decolou. Tinha várias características de vencedor, menos uma vital: sal. Talvez nessa caso o ingrediente não fosse exatamente esse, fosse sim, pimenta. Cadu precisava de apenas UM barraco para levar essa edição. Não porque fosse mais personagem do que Dourado ou Dicésar, mas por passar com louvor nos quesitos em que os outros dois tropeçavam. Ele era a mistura equalizada entre Bambam e Rafinha. Faltou a pitada dos outros ganhadores.

Fernanda

A maior farsa do programa. Uma vergonha para o rol de segundos colocados que realmente ameaçaram os ganhadores (a.k.a Elaine, Tiago, Gisele e a estrela mor, Priscila).
Partiu de semi-evangélica para semi-puta via carta. Chegou onde chegou pelo erro dos seus últimos concorrentes: Lia e Cadu. Sem falar naquele nariz…

É uma pena, mas o BBB acabou. Como todos sabem espero ansioso a montagem do zoológico para o ano que vem. Talvez vendo de dentro. #todebrinks #NOT

O estrangeiro protagonista

Nem eleição de governador, nem o fim da CMPF, nem a condenação do casal Nardoni. À exceção dos gols da dupla Grenal, nenhum acontecimento nos últimos tempos provocou um urro tão espontâneo das janelas de Porto Alegre como o testemunhado ontem, quando Marcelo Dourado foi anunciado o vencedor do Big Brother Brasil 10. O Coala saúda a vitória não tanto pela personalidade do sujeito, mas por ser gratificante ver o protagonista vencer, o que nem sempre acontece quando os personagens da trama são reais. Melhor ainda quando o tal protagonista fugiu do papel de massa de manobra.

Dourado fez o programa girar em torno dele - coisa que Dhomini, Diego Alemão e Max também fizeram, mas com muito mais consciência do que estavam fazendo. Ao contrário dos outros três, Dourado não engambelou o público com o seu carisma. Foi o protagonista muito mais por identificação do público do que por interpretar conscientemente o seu papel de personagem principal.

Pedro Bial pode ser um babaca, mas ao dispensar a poesia bobalhona no seu último discurso, fez uma leitura precisa do jogo e do jogador. Dourado e Josi foram recolocados no programa como um elemento inicial de tensão para corrigir um pequeno defeito do programa: ele começa morno e termina morno. Com o nariz torcido para os ex-BBBs, acabou aquele clima de “amigos para sempre” que impera nos primeiros dias quando ninguém se conhece direito. O que não era previsto era o público se comover em tal nível com a exclusão de Dourado. Um pangaré xucro de 37 anos em meio a uma gurizada rebolante cheia de amor pra dar; menos para ele, lógico. E quando o cara embargou a voz e chorou constrangido por estar chorando, O Coala cantou a pedra no twitter: “se a globo fizer bom uso desse desabafo de hoje, dourado leva o #BBB”.

Acertou Bial ao dizer que Dourado venceu por ter passado a imagem de perdedor. Quem nunca se sentiu um estrangeiro em um grupo, que discorde. Passando a imagem de um cachorro vira-latas que, quanto mais chutes, mais tenta morder a tua perna, o público se apiedou e resolveu conduzir o lutador mediano a sua primeira grande vitória. Entre seus admiradores há sim uma boa parcela de trogloditas, mas não o suficiente para juntar os 92,4 milhões de votos que Dourado recebeu na final.

E o público insistiu com Dourado, porque em diversos momentos ele pisou na bola: nas suas declarações sobre a AIDS, no desejo confesso de quebrar os dedos de Angélica ou ao xingar Anamara enquanto ela deixava a casa. Má-criação que acabou compensada por outras características, como coerência e sinceridade ainda que em temas polêmicos, como no seu desconforto em algumas questões homossexuais do qual muitos compartilham, mas poucos teriam coragem de se posicionar publicamente. Transformou, assim, o BBB em As aventuras de Dourado no reino do arco-íris. Seria no mínimo um anticlímax se não fosse ele o vencedor, e especialmente brochante se o vencedor fosse um não-Dourado, como as samambaias Fernanda e Cadu. Não vencesse Dourado, que fosse Dicésar.

Mais comovente que o tal choro de Dourado, foi a sua postura no primeiro paredão. Embora todos de fora soubessem que ele venceria de lavada, sua ansiedade beirava o desespero. Na quarta edição do programa, Dourado expôs uma versão bem menos madura e saiu sem empatia alguma. Tudo merecido para o sujeito famoso pelas quebradeiras de bar em Porto Alegre com os amigos pitboys, o cara que disse que vomitaria na cara de Caetano Veloso e foi indicado ao paredão pela própria mina que ele pegou. Depois do programa, perderia seus patrocinadores como lutador e teria pouquíssima vantagem a ser tirada do papel de subcelebridade que cabe aos ex-BBBS. Então, tente imaginar o que ele estava sentido no paredão: “porra, será que eu vou sair chutado de novo? Será que seis anos depois me odeiam tanto quanto me odiavam antes? Por que merda eu aceitei tentar isso de novo?” Foda.

Em determinado ponto foi conveniente mostrar a Dourado um vislumbre da sua popularidade, como a história do poder supremo, e ele foi fazendo uso disso para virar o jogo. Justo? Não, mas como o Boninho insiste em falar e as pessoas insistem em não entender, o BBB não tem compromisso algum em ser justo, passar lições de moral ou o que quer que seja. Seu único compromisso é o de ser um bom programa de TV. Por isso, como comparou bem o novelista Aguinaldo Silva, ele é como um kibe: uma receita sem graça que muda constantemente o tempero para continuar saborosa.

Hoje, se o reality show tem algum defeito, é o de não ter encontrado uma forma de valorizar seus vilões sem que eles sejam eliminados de cara. Com paredões triplos, big fones, poder supremo e o caralho a quatro, André Cowboy do BBB7, por exemplo, jamais teria conseguido sobreviver por tanto tempo na edição deste ano. Muito menos teria viabilizado um paredão entre o casal principal (Alemão e Íris). Angélica, por exemplo, foi defenestrada tão logo bateu de frente com Dourado. Bom para o público, ruim para o programa.

Mas é uma das tantas sintonias finas que vão sendo ajustadas edição a edição e que fazem do Big Brother um fenômeno capaz de montar tramas com gente de verdade mais interessantes do que qualquer novela. Embora o programa continue sendo a Geni da intelectualidade brasileira, para O Coala o Big Brother (merchandisings e poemas do Bial à parte) é entretenimento em televisão no seu mais alto nível e feito da maneira assustadora de tão competente.

Coalas não correm

É, caros. Não deu tempo de assistir e criticar os últimos dois concorrentes a Melhor Filme, Um Sonho Possível e Um Homem Sério antes da cerimônia de hoje à noite. Amanhã, um post sobre a premiação (post inviabilizado porque o coalinha aqui ficou doente e teve que passar duas manhãs de molho/no médico). As críticas restantes entram no ar assim que possível. Foimalszaí.

Coala rumo ao Oscar - Parte IV

Guerra ao Terror
(Kathryn Bigelow)


Bomba a bomba, pragmatismo sobre a guerra

Se Guerra ao Terror é visto mesmo como o maior concorrente de Avatar, então já podem mandar a estatueta para Pandora. Não que o filme seja ruim, ele é de fato muito bom, mas não é (e parece nunca ter pretendido ser) essa maravilha toda que vem sendo dita por aí.

O rótulo de ícone da guerra do Iraque, por exemplo, só se aplica se considerado apenas o ponto de vista dos soldados, e no sentido mais restrito possível. A visão minimalista e pragmática da guerra, quase em primeira pessoa – uma questão de escolha, nenhum demérito – torna o filme nada político. Isso fica evidente pela linguagem: a cada novo episódio da trama, um letreiro anuncia em quanto tempo o batalhão antibombas em foco será substituído. Ou seja, danem-se os porquês de se estar naquele buraco, o objetivo dos personagens é sobreviver e dar no pé. Ou pelo menos eles acham que é.

No que Guerra ao Terror é, sim, muitíssimo competente é na direção da ex-senhora Cameron, Kathryn Bigelow. Esteja a bomba ou seus perigos periféricos onde estiverem, a cena é sempre filmada de modo a deixar o espectador o mais tenso possível. Uma guerra de nervos entre dois grupos entrincheirados, por exemplo, é lenta e de cores saturadas. Completamente diferente do movimento quando a bomba está atrelada a um homem-bomba arrependido, e há poucos segundos para decidir se vale a pena correr o risco de explodir junto ao tentar libertá-lo dos cadeados.

Guerra ao Terror tem grande serventia para um curso de cinema, dada sua competência técnica, sobretudo pelo custo de US$ 15 milhões, mais ou menos o preço dos dreads de um avatar. Para conquistar um Oscar, no entanto, falta um bocado de subjetividade.

Educação
(Lone Scherfig)


Jenny, (nem tão) complicada e perfeitinha

Duro constatar isso de um filme com roteiro de Nick Hornby, mas Educação cumpre bem menos do que promete para sua história de sedução entre um quase trintão mal-caráter e uma adolescente de 16 anos metida a esperta. São duas grandes decepções: a primeira é a de que falta no filme o que os adolescentes de Hornby têm de sobra em seus livros, sagacidade. Descartando uma tirada ou outra e o rostinho bonito, é deveras insossa a Jenny interpretada por Carey Mulligan.

A segunda é que a trama, bem quando vislumbra colocar a cabeça para fora d’água e enveredar para uma discussão interessante, toma uma pancada e volta tudo para o anticlímax previsível. Se trata do momento em que a protagonista percebe que ninguém, a não ser ela mesma, vai impedí-la de desistir de tudo para ficar com o sujeito. A razão disso diz algo sobre os anos 60 e sobre a função da Educação que dá nome ao filme, sobretudo para meninas. Infelizmente os desdobramentos não surpreendem e tudo volta ao seu lugar.

Resta elogiar a atuação de Peter Sarsgaard, que, repetindo a ambiguidade de seus personagens em Meninos não Choram e Hora de Voltar (Garden State), precisa apenas de um sorriso de canto para demonstrar que há algo de profundamente errado com ele. Mas é pouco para um filme tão festejado pela crítica. Talvez tenha sido eu que deixei passar alguma coisa.

Entre amanhã e domingo, os artigos indefinidos Um Sonho Possível e Um Homem Sério

Coala rumo ao Oscar - Parte III

Up
( Pete Docter)


A introdução de Up: e há quem diga que animação não é cinema

Desde o sucesso de A Bela e a Fera, o primeiro desenho animado indicado a Melhor Filme, a Disney só fez reproduzir uma fórmula em diferentes cenários: o(a) mocinho(a) ingênuo(a) passará por uma transformação a fim de matar (sim, na Disney eles sempre morrem) o vilão usurpador. Para isso, contará com a ajuda de personagens-escada cômicos e malandros (em geral, mascotes) e de um interesse romântico intrépido e de personalidade forte. Com poucas variações, se encaixam nessa fórmula Aladdin, Mulan, O Rei Leão, Hércules, O Corcunda de Notre Dame, Pocahontas e por aí vai…

Não que a fórmula tenha deixado de funcionar, mas eis que em 1995, com Toy Story, surge a Pixar para dar um sopro de originalidade e tecnologia digital nisso tudo. O impacto foi tanto, que, com o tempo, a única saída para a Disney foi comprar a Pixar e relaxar. Mas a produtora de Steve Jobs estava em busca de um novo salto de qualidade, ensaiado com Wall-E e concretizado agora com Up: produzir animações que sensibilizem da mesma forma crianças e adultos, embora por motivos diferentes.

Demora uns 15 minutos para Up arrebatar e logo em seguida apertar o coração da plateia, tão terno é o modo (sem falas, apenas com imagens e trilha sonora) como conta a história do casal de velhinhos que vai deixando seu sonho de viajar para mais tarde, até o “mais tarde” virar “tarde demais”. A partir dali, é impossível não torcer pelo vendedor de balões em sua empreitada de voar até o Peru com um escoteiro gordinho a tiracolo.

E se a primeira parte do filme serve para sensibilizar os adultos, na segunda ele vai cumprir aquela missão em que Wall-E ficou devendo: divertir a gurizada. É aí que entra o humor e as cenas de aventura. Mesmo na parte mais infantil, Up impressiona pela criatividade e ousadia de apostar tudo e mais um pouco no absurdo. Tente imaginar rottweilers com voz de Darth Vader pilotando teco-tecos em algum dos clássicos Disney citados ali no primeiro parágrafo e dá para entender do que estou falando.

Ao contrário do que disse sobre o filme do Tarantino, o bacana da Pixar é não saber por que lado ela vai te arrebatar no próximo filme, mas ter a certeza de que ela vai fazer de tudo para ser de uma forma completamente diferente da vez anterior. Uma lição que a Disney preferiu comprar do que tentar apreender.

Amor sem Escalas
(Jason Reitman)


Clooney, o melhor ator da sua geração, e a arte demitir

Se um filme é sobre um esportista que luta para superar as suas limitações, somos automaticamente levados a crer que no final ele vai triunfar, certo? Se é sobre um relacionamento impossível, mocinho e mocinha vão descobrir que para o amor nada é impossível. Se é sobre a chegada dos personagens à meia-idade, ficará a mensagem de que envelhecer tem lá suas vantagens. Pois se já é difícil encontrar um filme sem essas morais implícitas, mais raro ainda é um com a mensagem contrária: a de que a vida NÃO é um moranguinho.

Amor sem Escalas (primeiro passo para entendê-lo é esquecer esse título lamentável em português) não lida apenas com frustrações na sua trama central. Todo ele é sobre injustiças que muitas vezes nada têm a ver com a atuação dos envolvidos. Pode dar tudo errado, mesmo que você faça tudo certo ou que siga esse imbecil que é o seu coração. Nada mais adequado, portanto, que o protagonista e sua pupila vivam de demitir pessoas injustamente, profissão parasita da crise econômica, que cresce quando as outras caem.

Impressiona ainda o papel de George Clooney. Não só pela competência, mas pela coragem do ator em buscar personagens que o desafiem, quando poderia tipificar-se com a maior facilidade do mundo em Hollywood. E não falo em engordar, imitar trejeitos ou esconder-se embaixo de maquiagem para disfarçar a boa aparência – esses clichês do “vejam como sou um bom ator” – mas em atuações que exploram as entranhas do personagem mesmo, como os dilemas éticos de Conduta de Risco (um dos melhores filmes que já assisti, diga-se) ou as formas de lidar com a solidão neste último.

Amor sem Escalas é feito, sim, para te colocar pra baixo, mas nem por isso deixa de te fazer rir, de te emocionar e de mostrar o agridoce dos altos e baixos da vida ao longo da trama. Porém, há poucos conselhos para o sujeito que, ao fim da projeção, se sentirá tão desnorteado como Clooney (só que muito mais feio). Uma boa é assistir Preciosa, e constatar que tudo poderia ser pior.

Amanhã, Guerra ao Terror e Educação

Coala rumo ao Oscar - Parte II

Distrito 9
(Neill Blomkamp)


“Tentáculo na parede, vagabundo!”

Percebe-se que algo novo e louvável aconteceu com a Academia de Cinema quando entre dois filmes que abordam o apartheid de maneiras distintas, Invictus e Distrito 9, o escolhido para concorrer ao Oscar de Melhor Filme é o segundo. Aliás, os dois não poderiam ser mais diferentes: enquanto Clint Eastwood parece seguir uma cartilha do que de mais convencional e aplausível se fez no cinema americano, o Distrito 9 do sul-africano Blomkamp é original, caótico, sujo, violento e muito mais eficiente até mesmo na abordagem do racismo.

Os acertos do filme começam pelo seu protagonista, Wikus, um policial capacho encarregado de evacuar o gueto alienígena que se formou em Johanesburgo quando há anos uma nave enguiçou sobre a cidade. Dela desceram seres de inteligência comparável à humana, mas mais feios, instáveis, violentos, drogados, miseráveis e uma série de outros adjetivos subjetivos que poderiam muito bem ser aplicados – e foram, ao longo da história – a qualquer raça segredada.

Wikus funciona porque não é um herói. Tampouco é um vilão que se redime. É simplesmente um sujeito desesperado que põe os pés pelas mãos e se vê obrigado, em determinado ponto da trama, a auxiliar os alienígenas a fim de salvar a própria pele. A dinâmica entre ele e os “camarões” – como são chamados os ETs favelados – é o que leva o filme nas costas.

A lição que Distrito 9 passa, sem nunca deixar de entreter ao mesmo tempo, é de que um filme de ação não precisa ser idiota. Por mais profundos que sejam os temas discutidos na tela, o filme jamais deixa de ser movimentado, divertido e até meio trash nas cenas mais violentas. É a mesma lição que passa a academia ao indicá-lo ao Oscar: nem sempre um drama edificante com o Morgan Freeman é melhor do que uma ficção científica com alienígenas viciados em ração de gato.

Bastardos Inglórios
(Quentin Tarantino)


Shosanna, a Noiva de Kill Adolf

Tarantino é uma espécie de Garrincha de Hollywood. Ele vai driblar sempre para o mesmo lado, e você vai sempre cair. Em Bastardos Inglórios, o diretor beira à perfeição naquilo que sempre fez: um circo em que muito sangue vai jorrar, cenas clássicas do cinema serão homenageadas, diálogos geniais serão proferidos, os vilões serão tão perigosos quanto engraçados e personagens importantes morrerão quando menos se espera. Tudo isso embalado por uma trilha sonora do caralho.

Ao fazer seu “filme de Segunda Guerra”, Tarantino manda às favas o respeito pela história e se diverte como sempre se divertiu, e é difícil encontrar um defeito na sua trama sobre o esquadrão judeu que extermina nazistas. Brad Pitt e seus comparsas estão tão perfeitos na canastrice, Christoph Waltz interpretou um dos melhores vilões do cinema, o plano sequência de Mélanie Laurent de vermelho embalada por David Bowie é de arrepiar e o final do filme é indescritível. A única pergunta que fica é até quando a mágica do diretor continuará funcionando.

Esperto que é, Tarantino lançou apenas quatro longas-metragens após estourar com Pulp Fiction em 1995. Ou seja, ele deixa tempo suficiente se passar entre um filme e outro para que tudo o que esperemos dele seja mais do mesmo: diálogos geniais, homenagens, sangue jorrando…

Amanhã, decolamos com Up e Amor sem Escalas

Coala rumo ao Oscar

De hoje até sábado, O Coala apresenta suas críticas impressões à miguelão sobre os 10 concorrentes ao Oscar de Melhor Filme. A conferir se depois delas o blog pega no tranco, afinal já é março e já não é mais hora de coala estar hibernando. Hoje, o favorito Avatar e o surpreendente Preciosa. Amanhã, os agitadinhos Distrito 9 e Bastardos Inglórios. Enjoy:

Avatar
(James Cameron)


O soldado e seu avatar: uma boa ideia que ficou no casulo

Não assisti ainda ao da Sandra Bullock, mas nem preciso para chegar à conclusão de que Avatar é o pior dos indicados a Melhor Filme no Oscar do próximo domingo. O roteiro é tão cheio de clichês, mas tão cheio, que quando um personagem solta uma frase de efeito – “I see you”, manja? –, você pode ter certeza de que vai ouvir ela mais tarde, com a trilha bem alta, no clímax do filme. E aí rola aquele arrepio de vergonha e a impressão de que o personagem vai virar para a plateia e dar uma piscadela com cílios em 3D.

Com todos diabos, não só compreendo como defendo que o filme leve a estatueta como levou o Globo de Ouro. Explico. Mais do que um prêmio de cinema, o Oscar é uma chancela de que determinado filme entrou para um hall da fama, e ao se tornar nada menos que a maior bilheteria de todos os tempos, motivar reportagens que discorrem desde a salvação do cinema até a coerência de um ecossistema fictício, não dar o tal Oscar a Avatar é ignorar o trem da história. Resumindo, o Maior Filme por vezes ofusca o Melhor Filme a ponto de tornar essa distinção irrelevante.

Dito esse “ah, foda-se. Dêem o prêmio ao pessoal azul e voltamos a discutir cinema em 2011”, confesso que a mediocridade do roteiro é um bocado intrigante. James Cameron não é diretor qualquer. Em um momento qualquer do projeto concebido em mais de 10 anos, ele poderia muito bem gritar “corta!” e perguntar “mas vem cá, quem foi que escreveu essa bosta?” O que me faz especular que a ruindade é proposital.

Talvez a intenção tenha sido criar uma história tão bobinha porque, se fosse requisitado à plateia gastar algum neurônio que seja pensando no assunto, algo da experiência sensorial se perderia. Levando-se em conta que efeitos especiais devem estar antes de mais nada a serviço de uma boa história, ainda vejo com certa reticência a possibilidade de um filme em 3D ser mais do que um brinquedo de parque de diversões. Tim Burton, com sua versão de Alice no País das Maravilhas, terá a primeira grande chance de convencer o público do contrário.

Uma pena, porque ao fazer da história de Avatar uma trama ecochata preguiçosa, Cameron ignora uma excelente premissa: a ideia de um segundo corpo, onde você pode viver muito além das limitações do primeiro, é boa o suficiente para amparar um filme muito mais interessante. Mas explorá-la a fundo poderia significar sujeitar o público a uma reflexão, a uma avaliação e, sabe-se lá, a uma controvérsia que poderia levá-lo a desgostar de toda uma embalagem que, nesse caso, conta mais que o conteúdo. Mais fácil apostar na batidíssima história, já contada e aprovada um bilhão de vezes, do adversário que encontra redenção se apaixonando pelo inimigo. Uma balela rasa escondida atrás de uma porção de outras projetadas em profundidade.

Preciosa
(Lee Daniels)


Preciosa, brutalidade sem perder a ternura

Filmes com temática social correm sério risco de cair no simplismo, naquela vilanização do sistema e no coitadismo dos protagonistas. Está aí toda uma gama de filmes brasileiros recentes que não me deixa mentir. Há outros, no entanto, que não apenas se salvam dessas armadilhas como jogam na cara do público que, ao esperar sempre o mesmo de um determinado tema, preconceituoso e simplista é quem assiste. Preciosa é um exemplo.

O maior mérito do filme não é ser um bom dramalhão sobre gente fodida. Não que o drama não esteja lá: Preciosa, a protagonista, descobre no início da trama que está grávida do segundo filho do próprio pai aos 16 anos. E dali pra frente a coisa só piora. A grande sacada é jamais restringir o foco aos problemas da personagem e aos seus desdobramentos, mas explorar sobretudo o seu imaginário.

Preciosa mergulha fundo no universo próprio que todos temos, mas que somos tentados a não levar em conta em seres limitados intelectualmente, como se fosse preciso diploma para ter acesso à própria mente. Nesse aspecto, desde Vidas Secas uma obra não me impressionava tanto pela contraposição entra a riqueza interior das personagens e a imensa dificuldade que elas têm de expressá-las. O que gera frases geniais em sua simplicidade, como a avaliação da protagonista ao tentar (sem sucesso, obviamente) acompanhar uma conversa banal entre a professora e outra mulher – “elas falam como os canais de TV que eu não assisto”.

A narrativa em off, baseada nos diários que a protagonista é estimulada a escrever como parte de um projeto de educação particular, torna narrativa e a construção da personagem mais fáceis, mas não reduzem os méritos de dar densidade àquele tipo cuja superfície sempre bastou. Conhecer seus desejos, seus medos, seus delírios de grandeza, faz de Preciosa uma espécie de Amélie Poulain from hell – pobre, gorda, bruta, terna, semianalfabeta, genial e encantadora.

“Família grande só fica bonita em porta-retrato”

Enfim os publicitários sacaram que o modelo “família de comercial de margarina” não funciona mais nem em comercial de margarina. Aqui dois exemplos de como a publicidade tá incorporando as novas composições familiares sem neuras e mantendo o tom “fofo” e feliz. Afinal de contas, publicidade não é sinônimo de realidade.



Ownnnnnnnnnnnnn

Dress code

O que motiva o primeiro post de 2010 é uma bobagem bem grande que ouvi. Falando sobre moda “alguém” sentenciou: “Os estilistas desenham o que é moda, mas sempre andam com as mesmas roupas!”. Tá, tá, tá. Calma lá, né pessoal? Pra você que está pensando “mas num é que é verdade?” vamos só esclarecer um ponto importante nessa conversa. Quando um estilista fica famoso, seja com uma marca própria ou assumindo uma casa de renome, ele precisa assinar as suas roupas de tal forma que quando a modelo aponte no catwalk você saiba que aquele look é um legítimo fulano.

Ponto pacífico. Mas e quando se trata da imagem do estilista? A regra também vale. De nada adianta alguém reconhecer um Versacce na passarela e não saber que aquela loira bocuda horrorosa é a Donatella quando a vê na tv ou em uma revista. Os estilistas e seus nomes são ícones tão fortes para as marcas quanto as peças por elas lançadas.

Você que já está pensando em qual será o próximo blog que irá visitar, dá uma olhada nas fotos abaixo antes de ir e confirma a minha tese.

Se você vive no planeta Terra deve ter reconhecido no mínimo dois desses caras. E por quê? Por quê? Porque eles são iconográficos, cappice? Ou seja, eu estava certo desde o princípio. Se você não reconheceu ninguém, deve ser do tipo que acha que Vogue é só uma música da Madonna e daí, amigo, abrassss.

P.S.: A edição das fotos é um oferecimento de Paint Brush S.A..

Férias

Voltamos em 2010 - se tudo der certo. Até la acompanhem pelo @o_coala. Abrass